Síndrome do intestino irritável: quando o teste muda o diagnóstico.
Conviver com SII tratado e sem melhora real é mais comum do que parece. Em uma fração relevante desses pacientes, o que está por trás é um quadro tratável que o teste respiratório identifica.
A síndrome do intestino irritável — SII — é um dos diagnósticos mais comuns na gastroenterologia ambulatorial. Também é um dos mais frustrantes para o paciente: convive-se anos com distensão, alteração do hábito intestinal e dor, alternando dietas e antiespasmódicos, sem melhora consistente.
Em uma fração relevante desses pacientes, o que está por trás não é apenas SII. É um quadro identificável e tratável que o teste respiratório consegue mostrar: SIBO (supercrescimento bacteriano no intestino delgado) ou IMO (supercrescimento metanogênico intestinal).
01 · O que é SII pelos critérios atuais
Pelos critérios de Roma IV, SII é definida por dor abdominal recorrente — em média pelo menos um dia por semana nos últimos três meses — associada a dois ou mais dos seguintes:
- Relação com a evacuação
- Mudança na frequência das evacuações
- Mudança na forma ou aparência das fezes
Os subtipos clínicos são SII-D (predomínio de diarreia), SII-C (predomínio de constipação), SII-M (misto) e SII-U (indeterminado). O ponto crítico é que esses critérios descrevem um padrão de sintomas, não uma causa.
02 · Por que SII é diagnóstico de exclusão
Os critérios de Roma identificam quem tem o quadro clínico compatível, mas não excluem causas orgânicas que produzem os mesmos sintomas. Antes de aceitar SII como diagnóstico final, é esperado descartar:
- Doença celíaca e sensibilidade ao glúten não-celíaca
- Doença inflamatória intestinal
- Má-absorção de lactose, frutose ou sorbitol
- Insuficiência pancreática exócrina
- SIBO e IMO
SII descreve como o intestino se comporta. Não diz por quê.
03 · A sobreposição com SIBO e IMO
A relação entre SII e SIBO vem sendo descrita há mais de duas décadas. Os estudos do grupo de Pimentel e revisões subsequentes mostram positividade de teste respiratório entre 30% e 84% dos pacientes com SII, dependendo do substrato utilizado, dos pontos de corte e do perfil clínico.
Esse intervalo amplo deve-se à metodologia, mas a direção é consistente: uma parte importante dos pacientes rotulados como SII tem fermentação intestinal anormal que poderia ser investigada de forma objetiva.
04 · Por que essa sobreposição passa despercebida
Três motivos clínicos costumam estar por trás:
- Sintomas idênticos: distensão, gases, alteração do hábito intestinal. Sem um exame objetivo, é impossível separar pela clínica.
- Teste respiratório pouco solicitado: em muitos consultórios, ainda não faz parte do roteiro habitual de investigação da SII.
- Dietas de eliminação prolongadas: a dieta low-FODMAP reduz sintomas porque diminui o substrato de fermentação, mas mascara a causa. Quando se reintroduz, o quadro volta — porque a fermentação anormal nunca foi tratada.
05 · Quando suspeitar
Alguns padrões aumentam a probabilidade de SIBO ou IMO subjacente:
- SII-D com distensão precoce após carboidratos e gases ainda em jejum
- SII-C com flatulência intensa, sensação de evacuação incompleta e história arrastada — perfil sugestivo de IMO (metano)
- Falha de tratamento sintomático bem-conduzido por três a seis meses
- Uso prolongado de inibidor de bomba de prótons, cirurgia abdominal prévia ou episódio de gastroenterite que "deixou" sintomas
- Distensão pós-prandial desproporcional ao volume ingerido
06 · Como investigar
O método de escolha é o teste respiratório de hidrogênio e metano. Para o cenário de SII, a lactulose costuma ser preferida em relação à glicose, por avaliar todo o intestino delgado — incluindo os segmentos distais, onde a glicose já foi absorvida e não detecta supercrescimento.
O Consenso Norte-Americano de 2017 define como positivo o aumento de 20 ppm de H₂ sobre a linha de base nos primeiros 90 minutos. Para IMO, qualquer pico de CH₄ ≥ 10 ppm é considerado positivo, independentemente do tempo de coleta.
O preparo dietético nas 24 horas anteriores ao exame é determinante para a acurácia. Um teste mal preparado costuma trazer mais dúvidas do que respostas.
07 · Conclusão
SII é um diagnóstico real e válido, mas merece ser confirmado por exclusão ativa das causas tratáveis que se manifestam de forma idêntica. Aceitar SII sem investigar SIBO, IMO e má-absorções pode condenar o paciente a anos de dieta restritiva e remédios sintomáticos que tratam o efeito, não a causa.
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